segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Rotação




Disseram-me “a vida é difícil”
Mas nunca explicaram em qual sentido
É mais ou menos um jogo de desigualdade
Quando clareia um lado
O outro se torna breu
É um ciclo, um costume
Um fenômeno incontrolável
Chame de rotação da terra, chame dasein
Mas esteja presente no momento que se chama agora
E procure virar o rosto pra onde estiver a luz

domingo, 30 de setembro de 2018

Todos os passos

I.
Sobre linhas tênues entre deixar livre
E desistir
Nuca abra a porta
Sem perguntar se eu estou com frio
Ou se eu pretendo sair sem te levar
(a verdade é que nunca pretendo)
-
Não desliga tua mente
somos uma constante mutação
Todas as fases tem beleza
Lágrimas tem o sol da manhã pra secar
E o único oposto ao amor
é a indiferença

II.
Eu te vi nos tons de azul do céu
E no cinza das nuvens que trazem a chuva
Saudade que dói
Força em cada passo e também nesse espaço
que nos separa para os dias
em que iremos a pintar rotina com cores próprias

III.
Objetos antigos, decorativos
Tapetes velhos
Poemas do Rilke
Um pouco de poeira
Dias de verão
Corações se aquecem
Com memórias que ficam
Sensações miúdas e gostosas
Sentir os pés no chão
Sentir  fusão do que somos

Vida normal
Tudo o que sempre quis
Ser única e também ser parte.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Se você quiser viver comigo


         

                     Talvez eu esteja doente
- será que tomei o remédio
ou o arremessei
pela janela do prédio?
Minhas olheiras bem roxas
Crateras da lua
Num rosto pálido
Bem, as feridas que o tempo não cura
Tornam-se literatura
- ainda que tardia (porque Castro Alves não pode me ler)

                 Queria sentir o sabor do mundo
Na ponta da língua
Que aponta como bússola inocente
Em direção às vontades futuras
Fica escondida atrás de um sorriso mal esculpido
Esperando a seta do cupido
Atravessar o peito do moço de óculos
De ar displicente
Temerosa fui eu – e descrente
Fiz planos como se troca de roupa
E os deixei de lado
Será que você me esperou parado?

               Mesmo que eu melhore meu café
E ele não fique tão forte
Mesmo que eu regue teu coração com carinho
Ou negue as balas de gelatina
Que eu pretendia colocar em compotas de vidro
na cozinha
Eu te envio paciência e livros
E espero que você aguente viver comigo

         A Terra gira
Em torno do nosso umbigo
E das belas fotografias
Enquanto a mente propaga-se em teorias
ela deve estar se afogando no dilúvio
Dessas semanas
E estamos batendo pernas
Molhando sapatos e afundando em poças

Quando deveríamos estar fundidos em cobertores, na cama.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Lei física


            Hoje eu sinto saudade
Não é tão sadio, na verdade
É uma longa fila de minutos à espera
Que eu preciso engolir
Junto com os traços malfeitos
Dos versos que eu rabisquei
Na sacola do supermercado
Por que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço?


sábado, 1 de setembro de 2018

Pássaros

I.
Um clarão entre todas essas nuvens escuras
Coisas que antes assustavam
Agora lembram você
e a vontade que eu tenho de enfrentar coisas inusitadas
já que os medos não fazem mais sentido

II.
Tem dias solitários em que sua companhia é tão presente
Nessas músicas que a gente escuta
Nos passos de dança bamba
Na ponta dos dedos folheando livros
No vapor quente que sai do café
Na maciez da tua pele à distância
nas coisas que nomeiam saudade
e te tornam real

III.
Queria te contar
que ontem adormeci com o gosto das coisas
que ainda não pude te dizer
tão francamente
Que você lembra aquelas esculturas difíceis de interpretar
mas que são tão bonitas
que uma vez admirando
é impossível manter distância
- como os pássaros de papel do Kiefer -
você me dá asas gigantes

IV.
Vem dançar comigo
Esse tempo é tão nosso
Todo tempo
é nosso
Agora e depois
preenchemos lacunas
Todo mundo fica confuso
enquanto a gente sorri
É  que as nossas asas
Só são vistas por nós.

sábado, 25 de agosto de 2018

Construção

I.
Vi alguns aviões passarem
com seu rastro branco no céu
Quando criança pensava
que aviões fabricavam nuvens
Quando a gente é inocente
não sabe a diferença entre beleza
e toxicidade

II.
Vi teus pequenos sapatos brancos - e chorei
a primeira coisa que amei
foram pés
pequenos e incrivelmente perfeitos
por simplesmente
serem pés

III.
Penso sobre o tempo e nossos planos
são como aqueles blocos de madeira
Conseguimos construir qualquer coisa
E quase sempre é possível
começar de novo

IV.
Fazemos tratados sobre saudade
não sabemos como partilhar e proteger nossas almas
- simultaneamente
mas tentamos
Admiro a coragem
do que somos
-cada um de nós-
empilhando esses blocos
com tanta calma e carinho.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

aquecimento não-global

I.
Estive me perguntando se ainda sei
pedalar na bicicleta
se faz tantos anos
que não entro nesse fluxo
observando tudo -pensando demais pra não perder o costume
ventilando minha mente
sobre tudo o que sinto e não digo 
- mas escrevo

II.
Eu lembro como é a sensação
de tocar o vento
enquanto pedalo - me segurando com uma mão só
é como o amor
lento, agradável, cheiroso
e cheio de riscos

III.
Dizem que silêncio se responde com silêncio
eu acho que teu silêncio quando muito
me faz pensar em abraços longos
e coisas 
que são inexprimíveis 
e que a gente só vive, sente - flui

IV.
Queria sentir o cheiro da grama
as estações aqui andam muito compridas
sinto falta do sol
e de ti
fenômenos naturais que aquecem o corpo
e a alma

V.
Voz de sono - quando a gente fala sobre segredos
imagina quantos sóis morando
dentro de uma casa
conosco
teríamos os corações
mais aquecidos dessa cidade.



quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Indizível

Percebo-me em paz e sorrio. A paz da esperança.
Quando passo horas com meus botões e escrevo um poema bobo. Leio pra Susan, dou risada sozinha e apago. Sento na varanda de manhã cedo, ouvindo os pequenos sons do despertar da cidade. É um ruído suave que sempre me deu sensação de completude. 
Olho as cores no céu. Penso em coisas infinitas e inexplicáveis e troco um olhar conspiratorio com minha alma. Há uns anos, eu odiava o tempo. Me fazia sentir presa, as esperas me doíam e nada daquilo tinha sentido. Era uma caixa grande me esperando. Dava medo. Hoje, ouvindo o som da manhã, eu estou feliz porque existe o tempo. Medida divina. Olho as dores passadas e sinto o alívio do presente. Logo, sei, ou tenho uma ideia, de que as coisas se encaixam de novo, se eu me permito tentar.
Aliás, acho que o grande brilho da existência é aquilo que nunca vou conseguir explicar. Os sentimentos, as criações, a beleza de cada cor no céu, o tempo, a fé, a esperança. Esse amor sólido que vem com a maternidade. Acho que a frase de Rilke finaliza bem: "e a longa experiência do amor, justo o que é absolutamente indizível."

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Palpite

I.
Ocupando a mente
Gasto coisas - gasto a mim
Enquanto tento achar pistas
Remotas
De que esse seu sorriso insolente
Seja um pouco por minha causa
Que eu não precise perguntar
Coisas que ecoem contra mim
Tenho tanto cuidado a oferecer
Mas sou ciente do quanto também preciso

II.
Talvez passe
Tem coisas que só existem pra dar vida a versos
E depois vão embora
Como aquelas nuvens escuras
Em fim de dias de verão
Como esses amores que nunca são

III.
Um amigo me disse 
Que eu deveria seguir meus próprios conselhos
Mas no fim eu sempre sigo
Eu só brigo um pouco comigo
Nada muito violento
Essas coisas de dialética
Também servem pra monólogos 

IV.
Afinal, quantas canecas de café
 servem uma mente acesa?
E quantas xícaras de chá 
aquietam borboletas imaginárias?
Eu acho que você sabe as respostas
- pra quase tudo-
E não faz tanta questão de responder.




segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Sabemos nadar?

 I.
Tem coisas que o silêncio fica cochichando
 É tão sutil
 tão morno
Quanto aqueles sonhos conscientes
Em que você consegue ascender as luzes
Mas não pode evitar sentir medo
(embora ninguém perceba que você o sente)

II.
Andaram me perguntando quando eu iria voltar a escrever
Mas ninguém sabe
que eu só continuo
trocando de endereço
de nome
de papel
Só a palavra eu não consigo trocar por nada
Porque ela mora em mim
Na ponta dos dedos
No fundo do peito

III.
Correndo a passos largos
pra fugir do amor
Quem diria- depois de tantos mergulhos
que eu fosse ter medo
de me afogar?

IV.
Mas existe uma centelha, é claro
de esperança que  você - é, você
depois de tanta conversa à toa
Tente pensar um pouco além
Depois de todos esses pequenos prazeres
que os dias nos proporcionam
Pense em andar de mãos dadas pela vida comigo
Afinal, já foram tantos os riscos que corremos
que ,com certeza,
Já sabemos nadar

V.
São essas as conjecturas
que o tempo anda gotejando
e o silêncio, cochichando
pra mim.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Feliz ano novo, feliz dia novo

Começo a pensar que recomeços e novos ciclos são mais válidos se criados por mim mesma do que quando sigo o fluxo geral dos calendários, fogos de artifício e nostalgia barata que vem com garrafas de champanhe e abraços falsos. No outro dia tudo é igual. Tenho a vantagem de não estar de ressaca e dou um sorriso leve. Sobriedade vale ouro nesse mundo tão insano. Escalo um Everest de ansiedade dia após dia por tanto querer preservar meus próprios pensamentos exatamente como são, e sentir cada pedaço da vida como ela é. Ainda que incompreensível, injusta, confusa. Porque mesmo que exista outra vida depois dessa, nada nunca é igual.
São linhas tão tênues que mudam aos poucos nossos valores e perspectivas. Quando a gente passa perto de perder pra morte alguém que ama. Ou quando de fato perde. É tanto o que podemos perder e sentir arrependimento por não ter feito, dito ou vivido... Parece estúpido dizer isso aos vinte e tantos anos, mas eu já não me sinto jovem como outrora sentira. Não quero viver demais pra não morrer cedo. Tem algo nessa existência que me dá sabor. As cores, essas nuances, as gotas da chuva embaçando meus óculos, o gosto do café, a gargalhada da minha filha... São essas coisas que me deixam morta de saudade do que se tornará passado em breve. E a alegria pela possibilidade do novo.
Eu estou feliz por estar viva. Cada dia de uma vez, às vezes é o que basta.