quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O lar invisível

Moro num banco gélido
Não tenho sequer a pretensão de sair
Por que sairia?
A vida me alcança em qualquer lugar
- talvez só me falte uma caneca de chá
Mas, bem, deixo-me inspirar o frio
Que nem sempre aparece
Junto ao teu zelo
Ou ao teu cabelo
Molhado depois do banho

Tenho uma inquietação
Quase descompromissada
Como os cadarços
Do meu sapato
Que há muito não amarro
Deixo-os com os mesmos nós sempre
E só calço
E ando
Alcanço
Alguma sanidade, talvez
Ou a rispidez das palavras
Que troco comigo mesma
Aquele infinito diálogo interno

Espero que você esteja bem
Espero
A banda passar, o vento cantar
Alguma coisa sacudir-me aqui
Em meu lar
Invisível
Tanto quanto eu
 imenso e maravilhoso breu
Onde quero sempre habitar
De solidão e identidade
Antes que eu esqueça
Que o vazio de existir é o melhor

Porque pode ser preenchido com o tempo. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Ana na contramão do mundo


Escuta, Ana
Acho que essa manhã pede
Pra que eu te acorde cedo
Talvez, em revés ao sono
Você precise ver o sol
Descansar de olhos abertos
Na rua que acabou de clarear os nossos passos
Com poeira
Onde vingamos nossos pensamentos mudos
Vertendo besteiras

Eu engoli o caos, Ana
Servi ele numa xícara
Que estava na mesa da sua cozinha
E bebi
Me engasguei
Percebi que já era um pouco tarde
E que tudo mascara o verdadeiro
E esses problemas que eu tenho
De excesso de anormalidade

Eu falei com o eco
- nas montanhas que você me mostrou
Fiquei pensando que solidão
É de andar na contramão
De não querer ser uma nova versão
Do que já é
Levar fé/ desprender-se da razão
Como se fossem dois botões
Com uma só opção
Obrigatória
Que mundo catártico
Linda escória

Estamos fora do mundo
Num universo mudo
De amizade que nasce com o sol
O arroio
O galope
Sem norte nem sul
Que nem a morte
Tem a mesma cor
No nosso prisma inventado
No nosso selo de correspondência

Patenteado na inexistência.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A Casa do Silêncio

I.                   Eu relutei
a geada me atraiu pra fora
E ela brilhava
Sussurrava formas
Feitas de fumaça
E pedaços de fontes incessantes
De sentimentos
Que os vagantes da noite
Esqueceram no gramado frio

II.                E adormeci com o sabor das palavras
Não proferidas
E pensei sobre a distância indizível
Entre nossos pobres corpos
Natimortos
Desejei asas
Negras
- feitas com trabalho em papel e kozo
Que eu poderia encaixar em mim
E planar sobre a vida



III.             Parece amargo respirar aqui
Na casa do silêncio
Por onde patino de meias
Tecendo teias
De tristeza
Com os pés

IV.             Fui mascando os diálogos incontroláveis
Dentro da noite
E das cores lisérgicas
Vivas no céu
Que me acena pela janela discreta
Da sala
Que fica sempre aberta
Caso eu queira levantar voo
Pra um solene encontro estelar
Caso eu queira mesmo

Voar.

domingo, 30 de junho de 2013

Mariana

Quantas coisas melhoram
quando o sol desaparece
Mariana se perde
na noite
e dança
na varanda
encanta, menina
canta sua sina
de ser sempre criança

Acho que você me prometeu
um dinossauro de verdade
ou um monstro de duas cabeças
você está em boa idade
use a memória
não esqueça
hei de cobrar essa história

Fotografa o mundo
documenta o escuro
sem medo do campo
sabe o quanto é amplo
o espectro da existência
mas vagarosa, em paciência
sorri
que a vivência
há de vir.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Despertar

O céu de um azul cristalino
clareia vagarosamente minha visão
através da janela da sala
que torna-se minha pequena casa
enquanto o mundo dorme

E quanto à TV
geralmente é uma tela apagada
que perde crédito em comparação
a um pedaço de papel
ou ao próprio céu
que eu posso espiar
acordando
e morando enrolada num cobertor

Em meio aos retratos de família
montes de sorrisos engraçados
me seriam válidos quadros
ou fotografias
de um sorriso perfeito
que eu levo no peito
quase sem perceber

Escuta, querido
ontem à noite você perdeu a Lua
e eu a encontrei
em meio a loucura
mas aquieta-te bem
que a sanidade sempre vem
em algum momento
nem que seja
quando eu desperto.

empatia na solidão

Como roer as unhas
e dizer coisas sem sentido
a angústia é rotina
de quem há muito vive instável, volúvel
nada criável
em mente tão descontente

Sentei-me no banco do ônibus
e ao moça ao lado tocava a janela
com a ponta dos dedos
na dor de seus antigos pesadelos
e senti minha tristeza se compadecendo

Queria segurar a mão da moça
apenas para que soubesse
que quando se anda na contramão
é normal respirar solidão
mas há sempre alguém
respirando o mesmo ar
e sentindo o desdém
do resto do mundo.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Mundo de Fora


Ao entrar no ônibus, ao caminhar no shopping, ao saltitar pelo centro de Porto Alegre em direção à Casa de Cultura: é sempre assim. Desde o dia em que descobri meu eu com papel e caneta até hoje, até agora. É como se todas – ou quase todas – as pessoas estivessem enroladas em uma espécie de filme fotográfico. Não posso vê-las; não posso mostrar-lhes as cores do mundo. Não consigo.  Elas não estão de alma aberta.
Que sensação é essa?
Às vezes é como se sua atenção se desviasse só um pouquinho. Então, você se percebe que está rindo para o céu, no meio da rua e que os rostos indiferentes de antes lhe olham prontos para julgar-lhe. Você percebe que o livro que estava na sua mão, o cheiro do seu cabelo depois do banho, o riso gutural do seu amor; a camisa velha de algodão, o jeans preferido, e as meias quase furadas; a sala, a cafeteira rosnando na cozinha: tudo isso sumiu. As almas fechadas quebram os pequenos prazeres. E você passa uns minutos xingando a “maldita sociedade” e os valores impostos. Fica torcendo para desaparecer ou evaporar, afinal, você é transparente como água.
Às vezes você tem a sensação de ter se levantado depressa demais. Você ouve o sangue correndo na sua cabeça, tem vertigens. Você se perdeu de novo. Está triste, com medo, sozinho. Onde estão seus amigos do Mundo de Fora? Onde está seu amor? Não estão aqui e ninguém se importa.
Às vezes você se sente eufórico. Tudo é sublime e tem uma aura. Você se sente único, por ter cor em um mundo que desbotou. É exatamente como um daqueles sonhos em que de repente você percebe que as pessoas não te veem.
Sinto-me pelo avesso, andando de ponta-cabeça, transformada numa versão de mim que é pura insanidade. Sinto-me um truque, uma ilusão. Nem sei se sou mesmo real. Há alguma lógica? Não sei.
É irônico, mas quando eu vejo alguém, fico com aquela sensação de estar pisando em nuvens. Há mais alguém de alma aberta. Há mais alguém que vê o mundo. Pode ser um estranho, um velho, uma criança, uma moça. Tanto faz. Existe. É mais alguém que vê. É mais alguém que eu vejo e que, distraidamente, coloca mais cor em meu mundo.