domingo, 30 de julho de 2023

Travessia

 

I.                    Ordinariamente tentando descrever sobre coisas borradas que assolam aquilo a que vulgarmente chamo de interior – alma

Subjetividades reais demais para tudo que é tátil

Tropeços imensos

Que me deixam estatelada num caminho que se desintegra

O chão se desfaz enquanto tento levantar

 

II.                 É engraçado como, quando tudo é escuro

A gente custa a lembrar como é a sensação da luz entrando pela janela

Torna-se apenas uma memória distante, um desenho no imaginário

Vai tateando pelos cômodos

Conhecendo as peças – estabelecendo um jeito de se guiar no meio do caos

No meio da dor

 

III.              Sonhei que tinha uma esperança

Como aquelas amizades tenras de senhoras que se encontram na varanda ao entardecer

Com uma xícara de café

A esperança de ter o conforto no silêncio – o silêncio de uma amizade antiga

De um amor - o que no fim das rugas, é quase a mesma coisa

As dobras do tempo nos põem apenas em páginas diferentes

 

IV.              Enquanto a luz se esconde

Tento lembrar como é estar desperta

Sentir as coisas na pele – deixar escorrer as lágrimas

Atravessar – porque a tristeza é sempre um pequeno rio

Mas é um rio que conheço

E por fim, não preciso ter medo de me afogar

Logo à margem

Sei que vou reconhecer o caminho da luz.

 

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Guarda-chuva


 

 

I.                    A vida corre numa velocidade maior do que minha mente

Que paralisa, sufoca

Enquanto tudo é imenso

E ao mesmo tempo

Cabe numa caixa

 

II.                 De quantos silêncios é composta uma alma cinza?

A solidão me devorou por inteiro

E perdi todos os meus pedaços

Desapareci do planeta

Tornei-me escuridão novamente

Sigo olhando no espelho

Uma imagem que não reconheço

Contornos que não parecem me pertencer

A imagem é distorcida

E penso: “tem uma mulher presa nesse espelho”

 

III.              Lembro-me dos dias em que minhas botas ficavam desgastadas

Em meio ao centro de uma cidade que parece distante

Aqueles ladrilhos

O suspiro de uma juventude que parece ter cessado tão cedo

A chuva não me incomodava

E eu só caminhava e observava

Todos aqueles pares de olhos

Imaginando

Que em cada um deles

Vivia todo um universo

E as mãos que criavam arte

Em cada exposição que eu não cansava de apreciar

Ou o jardim da Casa de Cultura, encontrado meu papel e lápis

Como se naquela fração de segundo

Eu tivesse meu lugar no mundo

 

IV.              Envelheci

Com pequenas rugas e alguns cabelos brancos

Que mal se veem

Porque fiquei velha por dentro

E tudo se torna gasto

Áspero e amargo

E me pergunto se conseguiria visitar

Aquela menina e seu guarda-chuva roxo

Que sentia as mesmas dores

Mas que via a vida sob um prisma com infinitas cores

Que tinha esperança na arte

E nas coisas que tocava com a ponta dos dedos

 

V.                Por que as perdas levam tanto do que somos?

Cometi tantos erros

E ao mesmo tempo

Sei que o maior foi deixar de lado meu eu

Esse eu que eu encontro tão pouco

Que brilha

E de repente deixa tudo opaco e vazio

E eu fico nessa inércia

Sem saber se um dia vai ter volta

Porque ele se vai sem deixar sequer um recado

 

VI.              Ainda cultivo esperança

Esse fio que me mantem ligada ao mundo

O frio me lembra

Que talvez eu ainda possa caminhar

E gastar minhas botas

Mesmo que eu já não goste tanto da chuva

E que não tenha mais

Meu guarda-chuva roxo.