I.
A vida corre numa velocidade maior do que minha
mente
Que paralisa, sufoca
Enquanto tudo é imenso
E ao mesmo tempo
Cabe numa caixa
II.
De quantos silêncios é composta uma alma cinza?
A solidão me devorou por inteiro
E perdi todos os meus pedaços
Desapareci do planeta
Tornei-me escuridão novamente
Sigo olhando no espelho
Uma imagem que não reconheço
Contornos que não parecem me pertencer
A imagem é distorcida
E penso: “tem uma mulher presa nesse espelho”
III.
Lembro-me dos dias em que minhas botas ficavam
desgastadas
Em meio ao centro de uma cidade que parece distante
Aqueles ladrilhos
O suspiro de uma juventude que parece ter cessado tão cedo
A chuva não me incomodava
E eu só caminhava e observava
Todos aqueles pares de olhos
Imaginando
Que em cada um deles
Vivia todo um universo
E as mãos que criavam arte
Em cada exposição que eu não cansava de apreciar
Ou o jardim da Casa de Cultura, encontrado meu papel e lápis
Como se naquela fração de segundo
Eu tivesse meu lugar no mundo
IV.
Envelheci
Com pequenas rugas e alguns cabelos brancos
Que mal se veem
Porque fiquei velha por dentro
E tudo se torna gasto
Áspero e amargo
E me pergunto se conseguiria visitar
Aquela menina e seu guarda-chuva roxo
Que sentia as mesmas dores
Mas que via a vida sob um prisma com infinitas cores
Que tinha esperança na arte
E nas coisas que tocava com a ponta dos dedos
V.
Por que as perdas levam tanto do que somos?
Cometi tantos erros
E ao mesmo tempo
Sei que o maior foi deixar de lado meu eu
Esse eu que eu encontro tão pouco
Que brilha
E de repente deixa tudo opaco e vazio
E eu fico nessa inércia
Sem saber se um dia vai ter volta
Porque ele se vai sem deixar sequer um recado
VI.
Ainda cultivo esperança
Esse fio que me mantem ligada ao mundo
O frio me lembra
Que talvez eu ainda possa caminhar
E gastar minhas botas
Mesmo que eu já não goste tanto da chuva
E que não tenha mais
Meu
guarda-chuva roxo.
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