Ao entrar no ônibus, ao caminhar no shopping, ao saltitar
pelo centro de Porto Alegre em direção à Casa de Cultura: é sempre assim. Desde
o dia em que descobri meu eu com papel e caneta até hoje, até agora. É como se
todas – ou quase todas – as pessoas estivessem enroladas em uma espécie de
filme fotográfico. Não posso vê-las; não posso mostrar-lhes as cores do mundo.
Não consigo. Elas não estão de alma
aberta.
Que sensação é essa?
Às vezes é como se sua atenção se desviasse só um pouquinho.
Então, você se percebe que está rindo para o céu, no meio da rua e que os
rostos indiferentes de antes lhe olham prontos para julgar-lhe. Você percebe
que o livro que estava na sua mão, o cheiro do seu cabelo depois do banho, o
riso gutural do seu amor; a camisa velha de algodão, o jeans preferido, e as
meias quase furadas; a sala, a cafeteira rosnando na cozinha: tudo isso sumiu.
As almas fechadas quebram os pequenos prazeres. E você passa uns minutos
xingando a “maldita sociedade” e os valores impostos. Fica torcendo para
desaparecer ou evaporar, afinal, você é transparente como água.
Às vezes você tem a sensação de ter se levantado depressa
demais. Você ouve o sangue correndo na sua cabeça, tem vertigens. Você se
perdeu de novo. Está triste, com medo, sozinho. Onde estão seus amigos do Mundo
de Fora? Onde está seu amor? Não estão aqui e ninguém se importa.
Às vezes você se sente eufórico. Tudo é sublime e tem uma
aura. Você se sente único, por ter cor em um mundo que desbotou. É exatamente
como um daqueles sonhos em que de repente você percebe que as pessoas não te veem.
Sinto-me pelo avesso, andando de ponta-cabeça, transformada
numa versão de mim que é pura insanidade. Sinto-me um truque, uma ilusão. Nem
sei se sou mesmo real. Há alguma lógica? Não sei.
É irônico, mas quando eu vejo alguém, fico com aquela sensação de estar pisando em nuvens.
Há mais alguém de alma aberta. Há mais alguém que vê o mundo. Pode ser um
estranho, um velho, uma criança, uma moça. Tanto faz. Existe. É mais alguém que
vê. É mais alguém que eu vejo e que, distraidamente, coloca mais cor em meu
mundo.