Começo a pensar que recomeços e novos ciclos são mais válidos se criados por mim mesma do que quando sigo o fluxo geral dos calendários, fogos de artifício e nostalgia barata que vem com garrafas de champanhe e abraços falsos. No outro dia tudo é igual. Tenho a vantagem de não estar de ressaca e dou um sorriso leve. Sobriedade vale ouro nesse mundo tão insano. Escalo um Everest de ansiedade dia após dia por tanto querer preservar meus próprios pensamentos exatamente como são, e sentir cada pedaço da vida como ela é. Ainda que incompreensível, injusta, confusa. Porque mesmo que exista outra vida depois dessa, nada nunca é igual.
São linhas tão tênues que mudam aos poucos nossos valores e perspectivas. Quando a gente passa perto de perder pra morte alguém que ama. Ou quando de fato perde. É tanto o que podemos perder e sentir arrependimento por não ter feito, dito ou vivido... Parece estúpido dizer isso aos vinte e tantos anos, mas eu já não me sinto jovem como outrora sentira. Não quero viver demais pra não morrer cedo. Tem algo nessa existência que me dá sabor. As cores, essas nuances, as gotas da chuva embaçando meus óculos, o gosto do café, a gargalhada da minha filha... São essas coisas que me deixam morta de saudade do que se tornará passado em breve. E a alegria pela possibilidade do novo.
Eu estou feliz por estar viva. Cada dia de uma vez, às vezes é o que basta.